reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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alguma coisa sobrou dentro disso tudo

alguma diferença fez

não lembro se era uma foto ou uma verdade explicativa sobre o mundo, mas

lembro que eu tinha gostado de verdade aquele dia

aquele dia, ou outro equivalente

algo que deixei pra olhar melhor num dia diferente

que fazia todo o sentido mas eu tinha outras coisas pra terminar antes

que tinha tudo a ver com as outras coisas, mas não exatamente

que eu pensei em anotar mas depois pensei anotar pra quê, rafael

anotar onde

pra depois fazer o quê com isso

 

ah se um dia eu fosse de verdade um estudioso

e tivesse a pachorra de entender o mundo sem autopreservação nenhuma

se eu fosse um cantor imenso e o meu tema fossem os revelamentos dentro disso tudo

todas as coisas que eu já sonhei saber que existiam

ou uma única coisa, mas seria equivalente

uma foto cristalina, de um lugar possível de ir

de um homem que existia e era bonito de um jeito que eu não achava mais possível

que já vivia de verdade no outro mundo

um homem que eu confundi com um livro que esqueci que tinha lido

ou que não li, mas alguém tinha me dito que gostou

mas gostar serve mesmo pra quê, exatamente

 

ora pra alguma coisa com certeza serve

no mínimo é diferente de coisa nenhuma

no mínimo é aquela história de se fui eu que sonhei que era uma borboleta ou

se foi a borboleta que sonhou que era eu, etc

uma antiga verdade chinesa, ou algo mais preciso que isso

quando eu precisar eu googlo.

 

 

 

De revista Ouriço (2022)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca