Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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alguma coisa sobrou dentro disso tudo

alguma diferença fez

não lembro se era uma foto ou uma verdade explicativa sobre o mundo, mas

lembro que eu tinha gostado de verdade aquele dia

aquele dia, ou outro equivalente

algo que deixei pra olhar melhor num dia diferente

que fazia todo o sentido mas eu tinha outras coisas pra terminar antes

que tinha tudo a ver com as outras coisas, mas não exatamente

que eu pensei em anotar mas depois pensei anotar pra quê, rafael

anotar onde

pra depois fazer o quê com isso

 

ah se um dia eu fosse de verdade um estudioso

e tivesse a pachorra de entender o mundo sem autopreservação nenhuma

se eu fosse um cantor imenso e o meu tema fossem os revelamentos dentro disso tudo

todas as coisas que eu já sonhei saber que existiam

ou uma única coisa, mas seria equivalente

uma foto cristalina, de um lugar possível de ir

de um homem que existia e era bonito de um jeito que eu não achava mais possível

que já vivia de verdade no outro mundo

um homem que eu confundi com um livro que esqueci que tinha lido

ou que não li, mas alguém tinha me dito que gostou

mas gostar serve mesmo pra quê, exatamente

 

ora pra alguma coisa com certeza serve

no mínimo é diferente de coisa nenhuma

no mínimo é aquela história de se fui eu que sonhei que era uma borboleta ou

se foi a borboleta que sonhou que era eu, etc

uma antiga verdade chinesa, ou algo mais preciso que isso

quando eu precisar eu googlo.

 

 

 

De revista Ouriço (2022)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca