Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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Consideração para depois de almoço

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Por esta altura um homem já pisou a lua

metade do mundo ardeu pela televisão

flocos de gelo deslocaram-se de continentes

cocktails foram inventados para homens carecas

famílias foram criadas para a preguiça

no Jardim da Parada jogam às cartas

um bebé morreu na minha barriga

mantos de crude espalharam-se no Atlântico

a crítica da razão pura foi atendida em muitas mais línguas

levando ao suicídio mais de cem crianças

o homem do talho baixou as calças para a lua

o yogi da montanha rolou com o lobo da neve

os centros comerciais tornaram-se gigantes

Alan Vega apagou dois cigarros na cara durante um concerto

a queixada de um prédio ruiu com pessoas dentro

a minha gata mastiga o fulcro maciço de um pássaro

meu pai foi fechado num velcro

os meus ténis afundaram na relva

minha mãe murmurou qualquer coisa

um autor escreve como se tudo estivesse bem

à procura do seu caminho no que resta do grande sonho galáctico

floriu e não foi por engano o pinheiro bravo.

 

 

 

De Divisão da Alegria (2022, Tinta-da-China)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca