Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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É claro que o poeta antes de ti consultou o supremo o desvão

os sete sábios as abelhas bêbedas do semântico mel

os grandes mestres da interpretação da luz

repartiu por si e ao espelho a colecção vampiro

passou bons momentos com as pernas de outros poetas

alimentou os cisnes de inverno a prantos de ouro

derivou no mesmo grão de areia o céu e o mar

 

tocou de tão perto a carne do sol que pensou ser

de tão próximo o primeiro e último romântico

 

devo comunicar,

antes de adormecer para o sofá da história

que foi uma pessoa de facto um filósofo um poeta

que riscou um fósforo para a biblioteca de Alexandria

e também ele iluminou no escuro o seu dia triunfal.

 

 

 

De Divisão da Alegria (2022, Tinta-da-China)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca