Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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Sinceras lampadazinhas

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Obrigada por me lembrares das grandes charcas

dulcíssima palavra reflectora onde vejo de imediato

o sol a cair de chapa e lucefécit no céu cor de ratazana

desta querida e velha Lisboa

 

sinceras lampadazinhas trazem os genes da tua fala

mesmo as menos alegres que nem por isso vêm

menos cheias de sopro e futuro

 

um hectare de terra é entrada directa na santidade

 

voltei ontem do Alentejo onde vivo só de ser carnal

por aqui vou estando para trabalhos e dinheiros

fechei o livro que sairá algures no ano que inicia

contenta-me que se fuja para o campo para sempre

e não confusamente

 

alegra-me a ideia de ficar completamente

e ir ressoltando o fantasminha da iluminação

 

um dia quem sabe

acordar de frente para uma árvore verde até ao fim

 

árvores de fruto: às vezes olho para um limoeiro

numa das partes recuadas da casa e espanta-me

a felicidade com que respondo também sou tua

 

e o limoeiro com seu corpo brilhante de lantejoulas

podia perfeitamente ser o marmeleiro de Victor Erice

ou um recado teu:

 

acompanha-me nos teus bons pensamentos

não quebres

nesses dias de chiclete e castelos de betão.

 

 

 

De Divisão da Alegria (2022, Tinta-da-China)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca