Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Diana V. Almeida

Sobre o autor

Lecionou no ensino superior entre 1997 e 2020, tendo dirigido um centro de escrita académica na Faculdade de Letras da ULisboa, onde foi professora desde 2007. Como investigadora do CEAUL (Centro Estudos Anglísticos ULisboa), realizou o pós-doutoramento em poesia e fotografia, desenvolvendo performances culturais de escrita criativa no Museu Coleção Berardo (2009-2015). Publicou ensaio, ficção e poesia; traduziu Eudora Welty para a editora Antígona, com a qual continua a colaborar; editou várias antologias críticas. Agora dedica-se às artes da cura em três áreas — energia (Afinar o Coração), criatividade (Escrever o Coração) e visão (Rituais Fotográficos). Cosmos e casas, o seu primeiro livro de poesia, nasceu há meses (Urutau). Site.