Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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Sob o mar o tempo movendo placas rocha sobre rocha

sinalando derrocadas no decurso perene da matéria

soterrando conchas dá a ver, em escala menor

do que o olhar poderia sequer supor, somente

imaginar estado de perceção mais apurado,

cronologia, disposição fóssil disruptiva perfeita

no caos contínuo que refaz planos afasta continentes

subleva montanhas entrando alguns centímetros

precisos cada ano para novo lugar, pois sob o mar

pode ver-se o trabalho incessante da Terra

movendo seus mantos em qualquer direção

cardinal, movendo seus fogos acima abaixo

além de diagramas ou desejo mais preciso,

parecendo até propor folguedo uma charada

aos sábios que recolhem dados calculam

probabilidade avaliam causa medem

produzem factos edificam paradigmas isentos

no logro da episteme possível perfuram solos

com grandes máquinas categóricas recolhem amostras

lendo milhões de microscópios compõem tabelas

 

Assim te escuto

toda entregue a teus gestos

à terna ironia com que flirtas minha ignorância

criando cenários paralelos filando hipóteses

para partilhar teu furor de saber reverente

demanda do princípio da eternidade

direito ao mistério das coisas — a mão

de Deus escrevendo infinito labor

 

A perfeita lentidão dos milénios resolvida

num sismo abalando a perfeita lentidão

das partículas dançantes cumula cronografia:

no espaço as paisagens marinhas elevam-se à luz

sob o claro céu o fundo, enquanto invisível

discreta constante corrente suga para si

os continentes ordenando mapas agregando

matéria corpuscular cujos pesados protões contam

novos ciclos compondo estruturas ao cristalizar

 

Pouco sabendo seguimos tateando

procuramos terra firme prova

padrão pedra onde pôr o pé

para suportar o susto

— conquanto, todos cada um perdidos

no furor secreto que nos rasga a meio

amiúde, escrevendo direito sabemos

já o desvio que tudo deita a perder,

cremos traço retilíneo rota

mental inviável fundamento fuga

ao negrume ao vazio especular —

esta elipse sombreada

pousada em papel pautado

indicando rotação ponteiro setas

limiar do espaço-tempo —

por isso, o diálogo elude lapsos

brechas por abrir ainda todo

o enigma do porvir na criação

complexa no sussurro das águas, as marés

circunscritas por instrumentos de navegação

proximidade e assombro, por isso

persistimos desenhando escalas

correspondência valores padrão

(seguem os leigos meras linhas

prazerosas pondo o dedo na barriga

das ondas aplanadas quebradas

diminuídas por aproximação lógica)

— poderá sempre crescer o espanto e o temor

 

Mas sob o mar a subducção perfura perpétua

placas continentais, a crosta afinal terreno

móbil resvaladiço içando fraca barreira

ao avanço líquido, a cada instante mesmo

antes de tal ser percebido sendo o tempo

ele próprio eterno jogo refluxo

grata ilusão medida impelindo

desejo à nossa passagem apontando

direção conferindo ordem àquilo

que, enfim, feitas as contas, vai

além de matemática pura, para lá

de porquês, longe de qualquer suspeita

— o mistério amplia suas variáveis

seguimos nós apartados em busca de visão

 

em movimento

 

A subducção reúne, pois, placas

ensaia limite na dança das águas

ilustra provérbios empurra

montanhas fossas abissais

sobre o manto ígneo longo

vestido de fogo corrente

com que a Terra saracoteia

pelo espaço fora

 

 

 

Diana V. Almeida

de Cosmos e casas (2021, Urutau)

 

 

 

gravação e edição
Oriana Alves
masterização
PontoZurca