Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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Rir na rebentação

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Sou

 

corpo sólido

frágil fronteira

contra a queda casa

gozo e morte

porta termo

tecendo cortando

ligando células

igual movimento

vivo

cruzando galáxias

corpo cosmos

aberto ao devir

 

(consideremos, porém, percentagens (in)-

certezas números vírus intriga

apesar de medo desejo ou por isso mesmo)

pendemos para o salto superar a densidade

crescendo da terra ao éter          direto mistério

 

hoje o nevoeiro desfez céu e mar

seguem gaivotas noutra dimensão

simetria demarcando

ritmos cardinais rotas ignotas

(passíveis, contudo, de planos migratórios,

quadros, mapas, gráficos, paralelas)

 

vejo uma veia pulsar

no pé circuito anil

entre grãos de areia

globos cristalinos

mínimas conchas

tatuando a pele — rara

beleza do mundo

por onde

vamos

rastos de luz

 

(como brilhar ainda, sabendo

repetida desgraça riscando

por força a retina

linhas para ver

contra o infinito?)

 

enuncia meu corpo

seus ângulos firme

nexo com o mundo

e assim consolido

o trabalho ténue

de cada gesto no ritmo

do respir

ar precioso

 

Sou

 

una nua

sob o sol

o sal na pele

radiante real

 

entro no mar

chão que me chama

sua brandura cristalina

quero guardar

o júbilo das águas, primeira casa

minha morada movente, cor-

rente enleando os membros

dada ao prodígio do sal, flutuo

olhos de céu vasto vazio

onde voam ágeis nuvens

iguais águas aéreas

 

entro no mar

vendo o corpo ganhar

novos contornos halo

poalha áurea

na curta rebentação

tremulante. Avanço de-

vagar por entre as ondas translúcidas

gritando agreste alegria

brusco frio contra o fogo

do sol nos poros a pele

cintilante reverbera

 

vejo peixes ágeis serpentes oscilantes

sem princípio nem fim sabendo ser

o mar tudo

menos sólido

 

e já de bruços em terra

entregue à força mais grave

chupo longo travo a sal

sinto o sol entrar na pele

gota a gota restolhar

canaviais na falésia

ouço algas cheiro vento

abro nos dedos os lábios

embalada pela trova

lateja o sangue no ventre

 

aleluia, nosso hino

 

 

 

 

 

Praia da Galé, Melides, setembro 2020

Sintra, outubro 2021

 

 

Diana V. Almeida

de RUAL: Revista da Universidade de Aveiro, Letras, n. 10 (2021, Univ. Aveiro)

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO
Oriana Alves
MASTERIZAÇÃO
PontoZurca