Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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Porque seguiste o abismo até ao fim

como homem livre e

desdenhaste o teu marido inepto

excedeste Rodolfo em alma

riste da falsidade de Leão,

combinando em simultâneo

o ângulo do chapéu

com a linha dos lábios

porque

tua botina de verniz

pisava sem temor

os prados até

onde ia o coração,

ou madrugada afora

deslizando

do leito conjugal

onde o corpo alheio

do outro dormia ainda

porque

mesmo no mais sórdido enredo

foste brava e gozaste rosto rasgado

recebendo o saque de pirata

com o glamour da grande dama

querida Ema,

tiveste de morrer assim.

 

Por que diabo

te calhou um pai humilde uma mãe morta um marido tolo

um admirador cobarde um amante sem escrúpulos

uma vida medíocre sem sustento?

Jogaste a mínima fresta do enredo

entregaste a vaidade ao usurário

a preguiça corrompeu a vocação

apagou-se a palavra.

 

Má fortuna te fez

bela, sequiosa

pouco dada ao compromisso

desvairada, má fortuna

fez de tua palidez estandarte

arma dançante.

Tuas

luvas de pelica fina, teus malotes de viagens, os teus lenços

ou teus súbitos desvios piedosos

santa Ema

revolta em êxtase de luxo

Ema que na palavra vê apenas

o mais que não pode dizer

o corpo só

ao toque dos olhos abrindo

mais rápidos desejos.

 

Se naquela tarde em tua casa natal

quando cosias na frescura da cozinha

raiada pelas frestas de luz

era Verão e entrou Carlos,

visses melhor

além de flores secas e outras recordações do colégio ao fundo da gaveta,

se inventasses nova história e não temesses

nem fosse teu corpo biombo.

Se atentasses nas contas, nas cartas, nos deveres de esposa e mãe

nas toiletes, nos recibos dos doentes, no ciúme da sogra, nos costumes da vila

nos desígnios da ficção. Se a hipótese mesma resgatasse

o horror do teu suplício teu cadáver trajado a noiva de domingo.

 

Mas foste teimosa, arrogante, bela de mais, mentiste

sabendo bem que a heroína é moldada ao destino

trágico. Olha, devias ter pensado duas vezes, ser

modesta virtuosa menos expansiva

podias ao menos ter acabado as tapeçarias tocado piano com graça.

Se fosses pequena, ainda que medianamente cultivada,

rigorosa nos empenhos atenciosa por devoção educadinha

poupavas os nervos, escusavas de ser espiada por vizinhos

leitor e narrador

se tivesses princípios evitavas ser puta, eras feliz

deixavas crescer a piedade davas à luz meninos rosados

regavas as flores ao entardecer olhando os campos:

para ti bastaria por moldura a janela.

 

Fosses tu menos exigente, menos atormentada,

Ema, tudo teria corrido pelo melhor.

Mas era tarde de mais

Já o sabia o leitor avisado.

 

 

 

Diana V. Almeida

de Cosmos e casas (2021, Urutau)

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO
Oriana Alves
MASTERIZAÇÃO
PontoZurca