Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta
Partilhar

A amante escuta as suites para violoncelo com pesar

invisível secreta enche-se de rumores (o divórcio

atrasa a mulher manipula as contas, coitado) fica

quando ele parte de férias separadas mais o filho,

envia fotografias do rio o menino sobre o passadiço

suspenso subindo degraus. A amante chora quando ele

troca estrela por pedra, peso por brilho, negando porvir.

 

A amante recita a raiz das palavras, porém preferia

dar-lhe a mão na rua e não manter certa distância

discreta, ama por defeito refém da mais velha espera

que tudo torna menos vivo, até ele chegar abrindo os braços

para a tomar de assalto. A amante lamenta não poder sonhar

a dois, neste cansaço interrompido em que se encontram

no tempo roubado aos deveres (trabalho e família),

mas ele pensa sempre nela em primeiro plano

diz cheio de verve e poesia, a amante ilumina-se crente

na comoção que a impele presa no enredo paralelo

avança de peito forrado a ouro no chão que se levanta

crescendo sempre, por amor diz a duas vozes ventríloqua.

A amante cerra os dentes, sorrindo por desfastio quando ele por-

ventura concede inteira presença, em verdade, nada importa pois

o amor tudo salva sendo seu fim firmar o móbil primeiro

de qualquer movimento, ímpeto espelhado de si para outrem.

 

A amante faz por cumprir o papel capital na mecânica da paixão

assolapada, percebe o fundo quando se entrega ao desengano

vendo tudo em plongée olhos de pássaro, além da mesquinhez

de mínimas jogadas em que o traçado cumpre regras repetidas.

Mais do que ser feliz em primeiras núpcias, a amante procura consumir-

se em  demasia na labareda desejante, brusca e florida, sabendo estar

(mos) aquém do infinito a cada passo: se o corpo súbito se desfizesse

na medida exponencial da entrega peito aberto seríamos somente

espaço desmedido nada. A amante descobre, pois, na ordem

um esteio contra o excesso devorador velocíssimo, tricota tarefas

impudente, quase seca, contando pelos dedos as horas do seu regresso,

quando repousa no peito eriçado escutando correr o sangue, canção

de abandono terno e fértil, apelo matriz solidez contra o ruído

cavado desde o princípio de tudo. Fora da multiplicação carnal

dos filhos-satélite (mesmo para quem talvez pouco os quisesse afinal)

 

a amante caminha pela praia deixando seu rastro no areal, imersa no bater

do mar, espreitando grutas, pequenas poças de água clara onde volteiam

camarões translúcidos contra os braços túrgidos das actínias

caleidoscópicas: na fronteira entre água e terra a amante perscruta

tudo absorve cada mínimo detalhe e sonha

um encontro tecnicolor um beijo com língua.

 

 

 

Diana V. Almeida

de Cosmos e casas (2021, Urutau)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO
Oriana Alves
MASTERIZAÇÃO
PontoZurca