Margarida, uma voz onde cabem muitas vozes

Margarida Antunes tem dedicado a vida ao canto. Uma voz que se procura, que se encontra com outras, que semeia.

 

Na infância passou um ano e meio em França, onde o pai esteve emigrado antes do 25 de Abril. Uma experiência que terá contribuído para se tornar assessora de imprensa no Instituto Franco-Português, onde passou a maior parte da sua vida profissional.

 

Antes disso, logo depois da revolução, integrou o GAC – Grupo de Ação Cultural – Vozes na Luta. Ao lado de figuras como José Mário Branco, Fausto ou Luís Pedro Faro, entre tantos outros, percorreu um país pobre e analfabeto, onde faltava tudo, e onde militares e camponeses, por um período breve mas prodigioso, se juntaram a eles num coro pela liberdade e pela justiça social.

 

Já reformada, não lhe sobra muito tempo para descansar. Faz parte da direção da Biblioteca Operária Oeirense, a mais antiga de Oeiras, e da Associação de Canto a Vozes – Fala de Mulheres, responsável pelo pedido de inscrição do canto de mulheres na lista nacional de património cultural imaterial, e é uma das fundadoras do grupo coral feminino Cramol, com mais de quatro décadas de vida e ativíssimo, entre concertos, oficinas de canto e organização de conferências.

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A amante escuta as suites para violoncelo com pesar

invisível secreta enche-se de rumores (o divórcio

atrasa a mulher manipula as contas, coitado) fica

quando ele parte de férias separadas mais o filho,

envia fotografias do rio o menino sobre o passadiço

suspenso subindo degraus. A amante chora quando ele

troca estrela por pedra, peso por brilho, negando porvir.

 

A amante recita a raiz das palavras, porém preferia

dar-lhe a mão na rua e não manter certa distância

discreta, ama por defeito refém da mais velha espera

que tudo torna menos vivo, até ele chegar abrindo os braços

para a tomar de assalto. A amante lamenta não poder sonhar

a dois, neste cansaço interrompido em que se encontram

no tempo roubado aos deveres (trabalho e família),

mas ele pensa sempre nela em primeiro plano

diz cheio de verve e poesia, a amante ilumina-se crente

na comoção que a impele presa no enredo paralelo

avança de peito forrado a ouro no chão que se levanta

crescendo sempre, por amor diz a duas vozes ventríloqua.

A amante cerra os dentes, sorrindo por desfastio quando ele por-

ventura concede inteira presença, em verdade, nada importa pois

o amor tudo salva sendo seu fim firmar o móbil primeiro

de qualquer movimento, ímpeto espelhado de si para outrem.

 

A amante faz por cumprir o papel capital na mecânica da paixão

assolapada, percebe o fundo quando se entrega ao desengano

vendo tudo em plongée olhos de pássaro, além da mesquinhez

de mínimas jogadas em que o traçado cumpre regras repetidas.

Mais do que ser feliz em primeiras núpcias, a amante procura consumir-

se em  demasia na labareda desejante, brusca e florida, sabendo estar

(mos) aquém do infinito a cada passo: se o corpo súbito se desfizesse

na medida exponencial da entrega peito aberto seríamos somente

espaço desmedido nada. A amante descobre, pois, na ordem

um esteio contra o excesso devorador velocíssimo, tricota tarefas

impudente, quase seca, contando pelos dedos as horas do seu regresso,

quando repousa no peito eriçado escutando correr o sangue, canção

de abandono terno e fértil, apelo matriz solidez contra o ruído

cavado desde o princípio de tudo. Fora da multiplicação carnal

dos filhos-satélite (mesmo para quem talvez pouco os quisesse afinal)

 

a amante caminha pela praia deixando seu rastro no areal, imersa no bater

do mar, espreitando grutas, pequenas poças de água clara onde volteiam

camarões translúcidos contra os braços túrgidos das actínias

caleidoscópicas: na fronteira entre água e terra a amante perscruta

tudo absorve cada mínimo detalhe e sonha

um encontro tecnicolor um beijo com língua.

 

 

 

Diana V. Almeida

de Cosmos e casas (2021, Urutau)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO
Oriana Alves
MASTERIZAÇÃO
PontoZurca