Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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[Era o Inverno de 69]

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Era o Inverno de 69.

Havia notícias como há sempre,

e suponho que fizesse frio.

 

A parentela acorria,

acotovelava-se ao redor da cama,

fingia estar feliz, ou talvez estivesse,

sabe Deus porquê. (Ao mesmo tempo,

abrigava-se da chuva.)

 

Nunca fui tão pequeno, nem tão pouco

parvo. A partir de então, industriaram-me

nas artes e ciências de estar vivo,

excepto a respiração, que é oferecida:

 

comer, roubar, fugir,

ser intramuros e existir na gleba,

e desistir

silenciosamente.

 

Sim. Foi, para mim, o Inverno dos Invernos.

 

E não há meio de acabar.

 

 

 

 

 

De A metafísica das t-shirts brancas (2012, 50kg)

 

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca