Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta

[Não me identifico com a minha infância]

Partilhar

Não me identifico com a minha infância. Não me revejo

na minha juventude. Não morro de amores pelo rapaz

que era há vinte anos. Não quero saber quem sou e, desde já,

não me interessa quem possa vir a ser. Contudo, em viver

ponho um enorme gosto, um prazer calmo. Sem pensamento

e sem identidade. Pequenas coisas britânicas – um chá,

uma cerveja, um vaso, um tecido, um penhasco de giz –

confundem-me a realidade e inebriam-me como um romance

antes de adormecer. São entusiasmos partilháveis, cintilações

fugazes, amores de beira-gare. Enquanto, com denodo

e sem pressa, aguardo a dissipação do mistério maior,

o espanto de que as tempestades são o fogo-de-artifício.

 

 

De Húbris sem Némesis (2022, Nova Mymosa)

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca