Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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[Não me identifico com a minha infância]

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Não me identifico com a minha infância. Não me revejo

na minha juventude. Não morro de amores pelo rapaz

que era há vinte anos. Não quero saber quem sou e, desde já,

não me interessa quem possa vir a ser. Contudo, em viver

ponho um enorme gosto, um prazer calmo. Sem pensamento

e sem identidade. Pequenas coisas britânicas – um chá,

uma cerveja, um vaso, um tecido, um penhasco de giz –

confundem-me a realidade e inebriam-me como um romance

antes de adormecer. São entusiasmos partilháveis, cintilações

fugazes, amores de beira-gare. Enquanto, com denodo

e sem pressa, aguardo a dissipação do mistério maior,

o espanto de que as tempestades são o fogo-de-artifício.

 

 

De Húbris sem Némesis (2022, Nova Mymosa)

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca