Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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Naquele tempo, era costume chegarmos de madrugada

às grandes capitais do mundo, depois de varrermos países

e países de estradas secundárias com as nossas lanternas,

e anunciarmo-nos como quem veste a guerra e o amor,

fazendo soar os sinos dalgum pequeno campanário de algibeira,

normalmente defronte de um balcão feito cascata,

enquanto as nossas vozes vendiam ilusões bíblicas

às raparigas que olham para o tecto como se fosse o chão.

 

Era ainda demasiado cedo para que os sapatos se impusessem

entre os pés e a estrada; demasiado tarde, todavia,

para que lhes confessássemos os jardins onde sonháramos

imagens difusas, feitas apenas de cor e dispersão,

antes da ordem muito antes do caos, a anos-luz da arte

e do abandono. Uma força imoral, uma urgência rara como todas

as urgências, decompunha espelhos sobre espelhos, encadeava

os dias e inventava a serpentina aparentemente interminável

a que se chama vida quando se tem ainda a dentição intacta.

 

Foi há muito tempo. Somos ridículos, hoje, quando evocamos

escaramuças ou risos, lábios fendidos ou beijados,

como se quinhentas vezes o nevoeiro não tivesse feito gritar

entretanto a sirene do nosso cabelo em recessão, como se

as nossas namoradas de Toledo ou Avinhão não se tivessem abortado

a si mesmas quinze vezes, e os anos, também a elas, não toldassem

os passos, como vómito até aos calcanhares. Resta-nos

a compostura de uma gravata nova, do cabelo aparado

até ao pavilhão auricular, e a talha dourada de uma partitura de Bach

para enganar a flacidez da carne, como se a carne precisasse de nós

para sentir a deserção da água, a inominável deserção da água,

de todas as praias a que não voltaremos.

 

 

De Desvão (2017, não (edições))

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca