Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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[Uma caixa de cimento fresco]

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Uma caixa de cimento fresco. Deita-o

lá dentro. Mete-te na mota, arranca, não

penses mais nisso. A sul, há mulheres

cujo futuro é um avião que não deixa

traços no céu. A norte, se preferires,

há-as engarrafadas, em decilitragens

as mais diversas. Com os homens

é a mesma coisa, dois dedos de conversa

e uns quantos cubos de gelo. Meia

hora chega para ir repondo o stock

de episódios com que fingir que estamos

vivos. Isso deve bastar-te, excepto

se te achares mais do que os outros

e Deus te livre de uma coisa dessas.

É isso: aprende a metafísica das

t-shirts brancas, das curvas apertadas,

da velocidade calma. O resto é

conversa de poetas, filósofos, historia-

dores, que fumam mais do que vêem

e lêem mais do que assobiam ao sair

à rua. O resto é uma perda de tempo

e não eras tu o tal que tanto nos

maçava com a iminência da

morte, com a falência da Sociedade

por quotas, com a geneologia

dos suínos? Aproveita agora esta

oportunidade de não ser nada

contigo; juro-te que ninguém

te vai levar a mal; envia, apenas,

um postal de Tânger e um contacto,

para o caso do Emanuel ou a

Angelina quererem ir de férias e

Precisarem de um sítio onde ficar.

Não é pedir muito em troca da

tua liberdade. Vá! Uma caixa de

cimento fresco. Deita-o lá dentro.

Sabes do que estou a falar. Ver-

melho escuro. Isso. O coração.

 

 

 

De A metafísica das t-shirts brancas (2012, 50kg)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca