Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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[Uma caixa de cimento fresco]

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Uma caixa de cimento fresco. Deita-o

lá dentro. Mete-te na mota, arranca, não

penses mais nisso. A sul, há mulheres

cujo futuro é um avião que não deixa

traços no céu. A norte, se preferires,

há-as engarrafadas, em decilitragens

as mais diversas. Com os homens

é a mesma coisa, dois dedos de conversa

e uns quantos cubos de gelo. Meia

hora chega para ir repondo o stock

de episódios com que fingir que estamos

vivos. Isso deve bastar-te, excepto

se te achares mais do que os outros

e Deus te livre de uma coisa dessas.

É isso: aprende a metafísica das

t-shirts brancas, das curvas apertadas,

da velocidade calma. O resto é

conversa de poetas, filósofos, historia-

dores, que fumam mais do que vêem

e lêem mais do que assobiam ao sair

à rua. O resto é uma perda de tempo

e não eras tu o tal que tanto nos

maçava com a iminência da

morte, com a falência da Sociedade

por quotas, com a geneologia

dos suínos? Aproveita agora esta

oportunidade de não ser nada

contigo; juro-te que ninguém

te vai levar a mal; envia, apenas,

um postal de Tânger e um contacto,

para o caso do Emanuel ou a

Angelina quererem ir de férias e

Precisarem de um sítio onde ficar.

Não é pedir muito em troca da

tua liberdade. Vá! Uma caixa de

cimento fresco. Deita-o lá dentro.

Sabes do que estou a falar. Ver-

melho escuro. Isso. O coração.

 

 

 

De A metafísica das t-shirts brancas (2012, 50kg)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca