Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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[Ao sair da prisão]

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Ao sair da prisão, esperavas-me,

com uma ostra fresquíssima sobre as palmas

das mãos. Será sempre essa a imagem

que guardarei de ti, quer fiquemos juntos

para sempre, como dizem os padres,

quer partas para a China mais longínqua,

que é o coração de outro homem.

Depois de cinco anos cimentado,

rodeado pela música torturante de respirações

sem freio e sem paz, trouxeste-me o mar

a uma terra inferior, onde até os homens livres,

até as crianças, caminham de cabeça baixa.

Por isso, nunca te darei prendas no Natal

ou no teu aniversário: nada se poderia comparar

àquela lágrima feliz e vagamente sólida

que, nesse dia, me desceu pela garganta

até ao sítio indeterminado em que nos distinguimos

das feras. Posso apenas tentar confundir-me

com o tapete do corredor, com a torneira

da cozinha, com o creme que pões na cara,

de manhã ou à noite, e deixar que me dês o uso

que parecer melhor, ou que não me dês uso algum,

e aproveitar cada minuto dos teus gestos mais leves,

que, também eles, se assemelham ao mar,

quando as noites são calmas e o luar o ilumina

na baía de Cádis.

 

 

De Desvão (2017, não (edições))

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca