Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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[Ao sair da prisão]

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Ao sair da prisão, esperavas-me,

com uma ostra fresquíssima sobre as palmas

das mãos. Será sempre essa a imagem

que guardarei de ti, quer fiquemos juntos

para sempre, como dizem os padres,

quer partas para a China mais longínqua,

que é o coração de outro homem.

Depois de cinco anos cimentado,

rodeado pela música torturante de respirações

sem freio e sem paz, trouxeste-me o mar

a uma terra inferior, onde até os homens livres,

até as crianças, caminham de cabeça baixa.

Por isso, nunca te darei prendas no Natal

ou no teu aniversário: nada se poderia comparar

àquela lágrima feliz e vagamente sólida

que, nesse dia, me desceu pela garganta

até ao sítio indeterminado em que nos distinguimos

das feras. Posso apenas tentar confundir-me

com o tapete do corredor, com a torneira

da cozinha, com o creme que pões na cara,

de manhã ou à noite, e deixar que me dês o uso

que parecer melhor, ou que não me dês uso algum,

e aproveitar cada minuto dos teus gestos mais leves,

que, também eles, se assemelham ao mar,

quando as noites são calmas e o luar o ilumina

na baía de Cádis.

 

 

De Desvão (2017, não (edições))

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca