Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta

[Há poetas assim]

Partilhar

Há poetas assim,

uns gramas de aletria, fina e doce,

traficados como se fossem cocaína pura.

Alimento energético, é certo,

adequado ao passo de galope

com que esperam chegar a algum lado

e, ao mesmo tempo, agradável ao olfacto

de quem nunca suou, nem sequer a foder.

 

Massa e açúcar, como disse, muito,

mas também o leitinho da infância,

um toque exótico a canela do Ceilão

e o ingrediente secreto,

que pode ser qualquer coisa

e dizem as más-línguas que é apenas

uma irreprimível vontade de parecer interessante.

 

Sim, há poemas que só se assemelham

ao remate perfeito de uma consoada vulgar,

antes de cada um regressar a casa,

maldizer a família e dar início

à gestação de umas saudades nobres,

que aguardarão um ano pela matança.

 

Melhor dizendo, parecem-se com tudo

menos com poesia, essa grainha

de uva alojada na cárie de um molar,

que há que suportar só com morte interior,

porque essas coisas acontecem sempre

quando todos os dentistas se mascaram de renas

e vão passar uns dias à puta que os pariu.

 

 

 

De Do lado de fora (2021, Abysmo)

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca