Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Escavo as trevas à força de faróis:

aponto à estrada florestal

esses dois minúsculos sóis

com que inauguro galerias provisórias,

claustros, arcadas, naves arbóreas,

e de halos breves conjuro cancelas,

muros velhos, veredas, levadas.

 

O seu clarão torna visível o invisível,

traz as coisas para a existência:

marcos quilométricos, apeadeiros,

serrações assombradas,

pilares de pesadelo que suspendem sobre os vales

absurdos viadutos aéreos.

 

Com faróis ilumino porque não tenho luz própria:

cego viajo, como a traça,

às voltas, às voltas,

tão negro como a noite que lá fora me cerca,

peixe dos abismos, toupeira,

cometa.

 

 

De Estrada Nacional (2016, IN-CM)

data de publicação
25.04.2022
Gravação e edição áudio
Oriana Alves
Masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca