Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Sol Invictus

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I

 

Lasca de vidro que o Sol golpeia

no areal,

cisco caído na lente de um farol,

ínfimo caco no pátio das constelações,

assim és, infância.

 

Quanto mais diminuída

mais me cega a tua cintilação.

 

Todos os dias aguardo que passes diante do Sol

a puxar o carro dos mortos.

 

Um milissegundo é quanto dura o eclipse.

 

Mas a cegueira permanece a vida inteira.

 

 

 

De Firmamento (Assírio & Alvim, 2022)

data de publicação
29.04.2022
Gravação e edição áudio
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca