Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Rui Lage [compacto]

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Estes sete poemas, extraídos de Estrada Nacional (IN-CM, 2016) e de Firmamento (Assírio & Alvim, 2022), são habitados por uma tensão entre o visível e o invisível, entre o que já está revelado e o que só se revela à custa da descamação e da escavação do real empírico. Um automóvel que percorre uma estrada de montanha, feito cometa na noite, traz as coisas para a existência ao iluminá-las com os faróis. A luz da estrela que cintila no firmamento percorreu inconcebíveis imensidões de espaço-tempo para chegar até nós. Na verdade, contemplamos estrelas que, nalguns casos, já não existem. Uma luz fóssil.
Afinal, nós próprios somos feitos de invisível – de partículas elementares, infinitamente pequenas – e até dessa matéria escura prevista pela física. O visível é uma falácia.
A minha poesia resiste ao império do visível. Quando tudo é encaminhado para a arena do visível, quando se extinguem todos os recantos escuros, todos os ângulos mortos, que lugar fica para o desconhecido e para o mistério? Que lugar fica para esse invisível que era, para o Rilke, o “Grão-Mestre das ausências”?

 

 

Rui Lage

data de publicação
02.05.2022
GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca