Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Fotometria de Maria Miguel

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Light = Confusion

 

Coleridge

 

 

No princípio eras o tule branco que cegava,

de rivais meridianos e faunos

sempre rodeada,

bronzes puros no disco do Sol.

 

Eu amava a tua natureza ondulatória

no extremo azul da secundária.

Armava a película com cristais de prata

para arrestar a tua aparição

na vila transmontana,

cunhar no trigo a tua moeda

ou nalgum bosque humedecido

gravar o teu friso de água.

 

Agora procuro em ti a sombra dos vales

e agasalho no teu manto púrpura.

Nenhuma ruga pode turvar os teus retratos.

Envelhece apenas a moldura.

 

Agora a tua luz não é só tua,

serve de fundo à da menina,

pequena lente que te aumenta

e obscurece. O teu fulgor é indirecto

e o meu amor um erro de paralaxe.

 

Agora a tua aparição é um eclipse,

um advento que recua,

luz diferida no prisma

do meu coração.

 

Arco-íris em câmara escura.

 

 

 

De Firmamento (Assírio&Alvim, 2022)

data de publicação
01.05.2022
Gravação e edição áudio
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca