Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Paulo levantou-se do chão e, de olhos abertos,

não viu nada

 

 

 

Actos dos Apóstolos, 9

 

I

Subo ao monte sem tocha ou lanterna

a fitar a tela do firmamento

de estrelas inumeráveis perfurada.

 

Subo por não haver sossego na terra,

nem assombro, mistério, ou canto,

apenas tumulto, ecrãs, informação.

 

No manto constelado me agasalho

como peregrino chegado a lugar santo.

Espinho cravado na imensidão.

 

E nem o rumor da auto-estrada

que o vento transporta

destroça o feitiço do infinito.

 

Subo sem ego e sem alma.

Por amor ao distante. Ao inumano.

Subo porque abdico de ser visto.

Bicho de carbono suplicante,

subo ao firmamento como faúlha

convertida em diamante.

 

 

 

 

De Firmamento (Assírio & Alvim, 2022)

 

 

 

data de publicação
28.04.2022
Gravação e edição áudio
Oriana Alves
Masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca