Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Alguma coisa invisível deve actuar em nós,

tão ténue que não chegue

para pressentimento, lume intocável

que nos roça o pensamento, refracção ocular

de um astro distante.

 

Uma força a que imputar o momento angular

do meu coração

quando de avião sobrevoo a nossa casa

à hora a que estendes a roupa

ou esquentas o biberão.

Uma força que elucide o remontar do salmão

às águas nativas, a formiga

que acode à congénere ferida,

o sinal oriundo do aglomerado de Perseu.

 

Uma substância que nos move

ou demove

mas com a qual não chegamos a interagir, alguma coisa

electricamente neutra,

deslocando-se a velocidades próximas

da luz,

uma incidência devolvida,

como o Sol de Janeiro a exaltar o sal dos mortos.

 

 

 

De Firmamento (Assírio & Alvim, 2022)

data de publicação
30.04.2022
Gravação e edição áudio
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca