Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Eucanaã Ferraz

Sobre o autor

Poeta brasileiro, publicou, entre outros, Desassombro (2002, Prémio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional), Sentimental (2012, Prémio Portugal Telecom de Melhor Livro de Poesia). Os livros que lançou até 2016, oito no total, foram publicados num único volume – Poesia – pela Imprensa Nacional Casa da Moeda/Portugal. Em 2019 publicou Retratos com erro, simultaneamente no Brasil e em Portugal, com o qual venceu a primeira edição do Prémio Poesia Oeiras/PT. Ainda em Portugal, lançou, em 2020, a antologia O pavão do quarto andar e outros poemas portugueses. Organizou livros de artistas como Caetano Veloso ou Vinicius de Moraes e assina a edição de Coral e outros poemas, antologia de Sophia de Mello Breyner Andresen (2018). Também é professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro e atua como consultor de literatura do Instituto Moreira Salles.