Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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No paiol onde sonhava

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para Fabrício Corsaletti

 

Quando ao pé da casa em festa

mesmo as pedras eram jovens

eu era o mais belo e moço

entre a relva e as estrelas.

As nuvens me obedeciam

repetindo passo a passo

a dança que lhes dançava

girando nas capoeiras

recém-abertas na mata.

Caçador pastor flautista

eu era verde e dourado

por entre campos de feno

e o cheiro bom do carvão.

Os galos imaginavam

(se os galos imaginassem)

que eu era o sol que nascia

quando eles cumprimentavam

bom dia e eu respondia

tão simplesmente bom dia

depois de uma noite em claro

no colo que eu mais amava.

E de fato eu poderia

dizer que mesmo os cavalos

a chuva e as margaridas

sabiam de cor meu nome.

O tempo não me pedia

nada e eu nada lhe dava.

Os deuses quando existissem

tinham decerto esse rosto

onde exulta a juventude.

Palavra tão desvairada

– juventude juventude –

pássaro de tantas cores.

Na casa era sempre festa

grandes panelas risadas

primos primas correria

algodão groselha maio

escorrendo pelo tanque

de cimento que brilhava

como os olhos de Raquel

como a voz de minha mãe

cantando rosas de pano

em varais de céu a pino.

Juventude juventude –

tédio beleza arrogância.

Quem disse que a morte existe?

Nenhuma pluma é tão bela

– juventude juventude –

quanto as da sua camisa

diz-lhe o espelho submisso.

O cansaço era bem-vindo

e o sono beijava fácil

meus olhos sem nenhum susto.

Um dia talvez dormisse

no paiol onde sonhava

cidades só de futuro

e acordei num tempo alheio:

nenhuma lua nem céu

nem sequer a madrugada

nem o rumor cristalino

do voo das lavadeiras

nem o tremor de uma folha

caindo sobre o capim.

A casa era outra agora

distante daqueles dias

quando as pedras eram jovens

quando eu era rude e moço.

Ou nem há casa nenhuma

só a terra envilecida

onde o tempo nos despreza

quando já não somos verdes

e nossos versos são tristes.

Tivesse havido um tal tempo

dos homens e deuses juntos

era a mão adolescente

tomando pela cintura

a eternidade dos dias.

 

 

Eucanaã Ferraz

in Retratos com erro (2019, Tinta da China)

gravação
Rádio Batuta
masterização
PontoZurca
agradecimentos
Rádio Batuta