Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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Passam helicópteros

passam automóveis

passam aviões

os refugiados

passam nas manchetes

as notícias passam

livros apodrecem

mudam-se as vontades

os relógios crescem

cortam-se os cabelos

e no entanto é junho

desde aquele dia

os lençóis da noite

retornaram brancos

já passou setembro

trinta carnavais

já lavei as mãos

um milhão de vezes

já troquei de pele

e no entanto os dias

permanecem junho

os jornais não sabem

dizem que na China

fabricou-se um tempo

em que não é junho

mas de que me servem

outubros de lata

cobertos de ouro

março abril e maio

vendem-se baratos

em caixas de vidro

nas lojas de Tóquio

entre cerejeiras

de flores perplexas

porque tudo é junho

desde aquele junho

marinheiros sabem

este é um mês escuro

os faróis se acendem

ondas trazem restos

de dezembros mortos

que não vão embora

que ficam nas praias

quebrando nas pedras

velhas ampulhetas

junho nos desertos

sempre é mais bonito

as dunas caminham

num silêncio reto

sem nenhum destino

sem saudade alguma

das chuvas caindo

sobre os calendários

nos jardins supérfluos

dos grandes palácios

ou nos vasos plásticos

dos supermercados

mesmo a flor-de-maio

converteu-se a junho

exibindo em ramos

corolas de cobre

abertas em fogo

numa primavera

que jamais se move

nunca é germinal

nunca é messidor

sempre é sempre junho

tudo está suspenso

desde aquele dia

quando o sol subia

no mais alto norte

línguas livros nada

sempre o mesmo verso

surpreendentemente

sempre o mesmo verso

deito durmo acordo

visto cem camisas

uma sobre a outra

uma igual à outra

deito durmo sonho

que me chamo junho

e que toda a vida

dura trinta dias

deito durmo acordo

sempre o mesmo susto

medo de que junho

logo chegue ao fim.

 

 

Eucanaã Ferraz

in Retratos com erro (2019, Tinta da China)

gravação
Rádio Batuta
masterização
PontoZurca
agradecimentos
Rádio Batuta