Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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Minha mulher tem cabelos inabaláveis

estão cada dia mais longos são cabelos

que não param de crescer na extensão

de um giro completo de minha mulher sobre si mesma.

Irradiam-se do alto seguem pelos ombros vão nos calcanhares

e os seios se iluminam quando ela anda em modos de salgueiro.

Minha mulher cresce parece que leva uma fonte com ela.

Lavo perfumo escovo seus cabelos faço isso pacientemente

como um servo e posta sob a cabeleira radiosa assim

já não se vê o antigo rosto de minha dona é preciso adivinhar

ou recordá-lo. Essa mulher de cabelos escuros e tremendos

desde que a vi pela primeira vez nos casamos

e não paramos de avançar contra os cabeleireiros

contra o fogo contra os livros contra as leis que nos casaram.

Beijei seus cabelos quando escrevi o verso no qual começa o mundo

e será desse modo

até que o sangue me arraste para fora de suas franjas.

Cabelos de mulher. Durmo entre eles. Acordo.

Minha mulher seus cabelos e eu moramos na mesma casa.

 

 

Eucanaã Ferraz

in Retratos com erro (2019, Tinta da China)

gravação
Rádio Batuta
masterização
PontoZurca
agradecimentos
Rádio Batuta