Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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Margarida Vale de Gato

Sobre o autor

Nasceu em Vendas Novas em 1973. Traduz, escreve, é professora auxiliar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigadora no Centro de Estudos Anglísticos da mesma instituição. Transpôs para português Henri Michaux, Nathalie Sarraute, W.B. Yeats, Charles Dickens, Mark Twain, Marianne Moore, Jack Kerouac, Sharon Olds, Louise Glück, entre outros autores. Doutorou-se em 2008 com uma tese sobre a recepção de Edgar Allan Poe na lírica portuguesa da segunda metade do século XIX. Na sua obra literária, contam-se a peça de teatro Desligar e Voltar a Ligar (com Rui Costa, 2011, Culturgest) e os livros de poesia Atirar para o Torto (2021, Tinta da China), Lançamento (2016, Douda Correria) e um projecto poético com actualizações periódicas e edição da Mariposa azual: Mulher ao Mar (2010), Mulher ao Mar Retorna (2013), Mulher ao Mar e Grinalda (2018) e Mulher ao Mar e Corsárias (previsto para 2022). Mulher ao Mar Brasil (2021, Editora Moinhos) é a sua primeira encarnação transatlântica.