Poemas de Bibe – 16.º

Actuação escrita

 

 

 

 

Pode-se escrever

 

Pode-se escrever sem ortografia

Pode-se escrever sem sintaxe

Pode-se escrever sem português

Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua

Pode-se escrever sem saber escrever

Pode-se pegar na caneta sem haver escrita

Pode-se pegar na escrita sem haver caneta

Pode-se pegar na caneta sem haver caneta

Pode-se escrever sem caneta

Pode-se sem caneta escrever caneta

Pode-se sem escrever escrever plume

Pode-se escrever sem escrever

Pode-se escrever sem sabermos nada

Pode-se escrever nada sem sabermos

Pode-se escrever sabermos sem nada

Pode-se escrever nada

Pode-se escrever com nada

Pode-se escrever sem nada

 

Pode-se não escrever

 

 

 

 

Pedro Oom

In Actuação escrita (Lisboa, &Etc., 1980)

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Margarida Vale de Gato [compacto]

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Os poemas escolhidos são recentes, mas relacionam-se com temas que há já tempo me ocupam: o intervalo entre a escrita autoral e a tradução (de um livro em preparos, entre a sebenta académica e a antologia poética, Os Restos não Reclamados: Manual Lírico da Tradução), a poesia como gesto de lançamento ao mistério por via dos sentidos, às vezes traiçoeiros (da última coletânea, Atirar para o Torto). Estende-se a (dis)simulação ao vaivém entre a pessoa deste instante e os outros e o mundo que nos posiciona, o íntimo e o que participa de vários círculos. E a explosão do concêntrico na ondulação de sucessivas vagas, a guerra na margem e o amor por rumo, anunciando um novo título: Mulher ao Mar e Corsárias.

 

Margarida Vale de Gato

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
PontoZurca