Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta

Nas traseiras da cidade ocupada

Partilhar

para a Raquel

[depois de O Silêncio de Ingmar Bergman]

 

Quando a vimos pela primeira vez

pensámos que já tinha morrido

—a nossa irmã—não prevenindo

que seríamos o que ela fazia.

Nas traseiras da cidade ocupada

batendo à máquina num quarto

cujas janelas todas vedam

uma língua alheia

à que nos habita

a beleza existe

como nunca na desfiguração

moral, no desmaio

da esperança aleijada, excessiva.

 

É-nos a língua estrangeira cifra

e surto de esquisito consolo.

A crueldade existe

e não fomos nós quem a inventou.

A luxúria existe

e não foi por termos nascido

foi haver fome, incontidos vícios

blindados lábios, cândido calor

embaciado, calar que nada

ouve, é a nossa irmã

que entra no bar de casaco fino

e nós que não prevenimos

o bruto penetrar de corpos

os furos de chumbos repentinos.

 

Quando a vimos passar o vestíbulo

a entrar para o banho, a descer

o vestido, a exibir ao espelho

as nádegas de escultura

soubemos a partir daí

que a nossa mãe era diferente.

O conflito torce-nos

entre fofas almofadas

uma brancura insuspeita

uma aguda tortura.

Saímos para as traseiras

do quarto, na cidade

ocupada, arma de brincar

na mão, divertindo o dilúvio

no olhar, achando

o bom velho senil

e a caridade existe

mas é assim.

Nós os anões aos pinotes

procuramos o ar

 

Enquanto o abandono

com pernas esguias e claras

ao apito da locomotiva

marcha nas traseiras

a cidade despe-se

de membros válidos.

Nas traseiras da cidade

no interior das couraças

nos contentores do degredo

vive-se a guerra, travam-se

as mulheres

com suas soluções

de rancor e abrigo.

A infância trilha a solidão

com os passos precisos

 

 

Margarida Vale de Gato

de Atirar para o torto (2021, Tinta da China)

gravação e edição
Oriana Alves
masterização
PontoZurca