Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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Quando eu nasci a última guerra mundial tinha sido há vinte e oito anos

a colonial ainda tinha minas

a minha idade é já o dobro desse tempo nesta paz

sinceramente agradeço mas as coisas não convencem

como a tosse sempre na garganta o escorrega acentuado

da esperança e viver como julho temporão quando passou

já o dia mais longo custa trabalhar o vento tem grão a lua

zomba amarela cada hora mais matrona as melgas rondam todas

as atividades parecem besuntadas de creme contra

a exposição solar as picadas do peixe-agulha a comichão

da caravela portuguesa não é a sabedoria que se ganha

a ternura que se conquista uma ova é esta película

de gordura entre nós e o mundo os tornozelos

inchados no lodo do mar morto

a sabedoria aliás não tem nada que a recomende

 

eu que o diga que fiz estudos

ganhei uma cadeira de armar à sombra da academia

e quando o rei faz anos espremo as tetas

da poesia de cada vez o leite é mais ralo

o soro nem vê-lo de resto dane-se para quê

a inoculação? já agora o direito internacional que nos vale

as costas direitas para dizermos que não cabem

não há cais nem margem não há cá piedade

que chegue para os povos das partes baixas do mapa

felás infantis logo querulentos garotos famélicos

grávidas desidratadas gente que nos olha

por cima da burra com pragas e mil vícios

isso não é bonito

 

vem com o pacote agora desembrulhe-se

tanta hubris esta bílis se calhar é o valor fiduciário

sei lá eu sou das letras tudo passa

sem os meus palpites a minha pieguice pouco faz

em justiça nem sequer dá alívio o que eu devia

não era reclamar era convocar o imoderado dilúvio

quando não a fé da indecorosa juventude

inundada cheia que valha nos esparza

nos capitule

sei lá eu fácil saída fraco remédio

para a catástrofe

unguento inócuo da nossa dor

se calhar faz parte do problema

o pejo conservador que no poema se cante

um exultante afogamento

 

 

Margarida Vale de Gato

de Atirar para o torto (2021, Tinta da China)

gravação e edição
Oriana Alves
masterização
Ponto Zurca