Poemas de Bibe – 16.º

Actuação escrita

 

 

 

 

Pode-se escrever

 

Pode-se escrever sem ortografia

Pode-se escrever sem sintaxe

Pode-se escrever sem português

Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua

Pode-se escrever sem saber escrever

Pode-se pegar na caneta sem haver escrita

Pode-se pegar na escrita sem haver caneta

Pode-se pegar na caneta sem haver caneta

Pode-se escrever sem caneta

Pode-se sem caneta escrever caneta

Pode-se sem escrever escrever plume

Pode-se escrever sem escrever

Pode-se escrever sem sabermos nada

Pode-se escrever nada sem sabermos

Pode-se escrever sabermos sem nada

Pode-se escrever nada

Pode-se escrever com nada

Pode-se escrever sem nada

 

Pode-se não escrever

 

 

 

 

Pedro Oom

In Actuação escrita (Lisboa, &Etc., 1980)

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Quando eu nasci a última guerra mundial tinha sido há vinte e oito anos

a colonial ainda tinha minas

a minha idade é já o dobro desse tempo nesta paz

sinceramente agradeço mas as coisas não convencem

como a tosse sempre na garganta o escorrega acentuado

da esperança e viver como julho temporão quando passou

já o dia mais longo custa trabalhar o vento tem grão a lua

zomba amarela cada hora mais matrona as melgas rondam todas

as atividades parecem besuntadas de creme contra

a exposição solar as picadas do peixe-agulha a comichão

da caravela portuguesa não é a sabedoria que se ganha

a ternura que se conquista uma ova é esta película

de gordura entre nós e o mundo os tornozelos

inchados no lodo do mar morto

a sabedoria aliás não tem nada que a recomende

 

eu que o diga que fiz estudos

ganhei uma cadeira de armar à sombra da academia

e quando o rei faz anos espremo as tetas

da poesia de cada vez o leite é mais ralo

o soro nem vê-lo de resto dane-se para quê

a inoculação? já agora o direito internacional que nos vale

as costas direitas para dizermos que não cabem

não há cais nem margem não há cá piedade

que chegue para os povos das partes baixas do mapa

felás infantis logo querulentos garotos famélicos

grávidas desidratadas gente que nos olha

por cima da burra com pragas e mil vícios

isso não é bonito

 

vem com o pacote agora desembrulhe-se

tanta hubris esta bílis se calhar é o valor fiduciário

sei lá eu sou das letras tudo passa

sem os meus palpites a minha pieguice pouco faz

em justiça nem sequer dá alívio o que eu devia

não era reclamar era convocar o imoderado dilúvio

quando não a fé da indecorosa juventude

inundada cheia que valha nos esparza

nos capitule

sei lá eu fácil saída fraco remédio

para a catástrofe

unguento inócuo da nossa dor

se calhar faz parte do problema

o pejo conservador que no poema se cante

um exultante afogamento

 

 

Margarida Vale de Gato

de Atirar para o torto (2021, Tinta da China)

gravação e edição
Oriana Alves
masterização
Ponto Zurca