Poemas de Bibe – 16.º

Actuação escrita

 

 

 

 

Pode-se escrever

 

Pode-se escrever sem ortografia

Pode-se escrever sem sintaxe

Pode-se escrever sem português

Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua

Pode-se escrever sem saber escrever

Pode-se pegar na caneta sem haver escrita

Pode-se pegar na escrita sem haver caneta

Pode-se pegar na caneta sem haver caneta

Pode-se escrever sem caneta

Pode-se sem caneta escrever caneta

Pode-se sem escrever escrever plume

Pode-se escrever sem escrever

Pode-se escrever sem sabermos nada

Pode-se escrever nada sem sabermos

Pode-se escrever sabermos sem nada

Pode-se escrever nada

Pode-se escrever com nada

Pode-se escrever sem nada

 

Pode-se não escrever

 

 

 

 

Pedro Oom

In Actuação escrita (Lisboa, &Etc., 1980)

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Não entendas mal, não me dês vulgares

sentimentos a que me sei alheia.

Não é a ti que invejo, é a ideia,

a lembrança, a experiência, os lugares.

 

Sabe que simpatizo com o que ousas

e terei medo, alguma cobardia—

até por isso não te roubaria.

Ser tu era ciúme, eu, orgulhosa,

 

não irei ocupar-te, é por metáfora

que me comovo e tanto do que vivo

é material de imagens que recolho.

 

Amo-te e do que amas não sou ávida:

teu júbilo é meu espírito efusivo,

a falta que te dói sol no meu olho.

 

 

 

Margarida Vale de Gato

de Atirar para o torto (2021, Tinta da China)

Gravação e edição
Oriana Alves
masterização
PontoZurca