reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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Ana Paula Inácio [compacto]

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Como Marianne Moore, leitor ouvinte, também “a [à poesia] abomino” (“há coisas mais importantes do que todo esse desatino”) e só de dizer-lhe o nome estremeço do desgosto que me deixa entre a língua pois, a maioria das vezes dizendo-se inútil, serve muito podre senhor.

No entanto, não fosse a contradição este pequeno bote salva-vidas, é também lá que encontro “um lugar para o genuíno”. Um lugar onde a matéria é a palavra e a palavra a linha que me tece e destece e entristece.

Nestes últimos anos, a linha 7, e férrea, tem sido a que me tem cosido, bordado, tatuado, saturado e suturado. Que estes 7 textos possam ser esse comboio onde entres e erres, assim como eu, leitor ouvinte.

 

 

Ana Paula Inácio

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca