reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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[Ao poema pensei chamar-lhe]

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Ao poema pensei chamar-lhe

um comboio depois de Auschwitz

mas não, seria soberba minha

apanhar-lhe boleia

quando o que queria

era dizer do meu amor pelos comboios.

 

Debruçava-me perigosamente

desse terraço sobre Campanhã

onde a Matilde me denunciava à minha mãe

enquanto lhe compunha uma onda alta

no cabelo que a tornava grácil, esbelta.

 

Descíamos Pinto Bessa e os saltos altos

enterravam-se-lhe entre o quadriculado

da calçada, mas ela gostava

o meu pai também

contornava-lhe melhor a perna

e o mundo desenhava-se na perfeição.

 

Nada sabia dos comboios

incapaz de lhes reconhecer

qualquer indício torcionário

amava-os nessa ingenuidade

da pouca terra ser muita

e me levar para bem longe

como gostava.

 

Não que não gostasse de ter asas

mas nunca senti que as do avião pudessem ser minhas.

Por isso declinava-o como meio rápido

gostava da lentidão

por exemplo, com que a Denise

(mãe brasileira, pai alemão)

delineava o “a” e o “r”

ou o modo como a Milita

me tirava as medidas

para o meu novo casaco de fazenda

azul.

 

Tinha crescido um palmo e meio

e a mão do meu pai então enorme

mostrava que o antigo já não servia.

 

Era uma menina sensual

e não sabia

assim como que quando nascia

Anne Frank faria 37 anos.

 

Ficava-me a ver comboios

como quem vê navios.

 

 

 

 

 

Inédito

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca