Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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[Ao poema pensei chamar-lhe]

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Ao poema pensei chamar-lhe

um comboio depois de Auschwitz

mas não, seria soberba minha

apanhar-lhe boleia

quando o que queria

era dizer do meu amor pelos comboios.

 

Debruçava-me perigosamente

desse terraço sobre Campanhã

onde a Matilde me denunciava à minha mãe

enquanto lhe compunha uma onda alta

no cabelo que a tornava grácil, esbelta.

 

Descíamos Pinto Bessa e os saltos altos

enterravam-se-lhe entre o quadriculado

da calçada, mas ela gostava

o meu pai também

contornava-lhe melhor a perna

e o mundo desenhava-se na perfeição.

 

Nada sabia dos comboios

incapaz de lhes reconhecer

qualquer indício torcionário

amava-os nessa ingenuidade

da pouca terra ser muita

e me levar para bem longe

como gostava.

 

Não que não gostasse de ter asas

mas nunca senti que as do avião pudessem ser minhas.

Por isso declinava-o como meio rápido

gostava da lentidão

por exemplo, com que a Denise

(mãe brasileira, pai alemão)

delineava o “a” e o “r”

ou o modo como a Milita

me tirava as medidas

para o meu novo casaco de fazenda

azul.

 

Tinha crescido um palmo e meio

e a mão do meu pai então enorme

mostrava que o antigo já não servia.

 

Era uma menina sensual

e não sabia

assim como que quando nascia

Anne Frank faria 37 anos.

 

Ficava-me a ver comboios

como quem vê navios.

 

 

 

 

 

Inédito

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca