reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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Um pouco mais de terra

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Aprendeste a escutar

encostando o ouvido ao chão

como nos filmes do faroeste

o cowboy acautelava a cavalgada inimiga

ou o índio pressentia a chuva.

 

Assim depositas a orelha nos carris

para que o frio deles

metálico

arrepie o sentimento

que de forma desleal te assalta como navalha.

 

Ouves o chiar das máquinas

como se a aproximação de uma tristeza antiga

sobre linhas direitas descrevesse histórias tortas.

 

A elas regressas e às estações encerradas

como se a província

como uma sentença

te votasse aos amores difíceis

às matronas e aos soldados insidiosos

às carruagens dormitório

e à excitação que as famílias não dominam

até o vazio t’escavar como uma colher

abre um poço no deserto

ou um túnel numa cela.

 

A carruagem passa devagar

e marca o ritmo.

 

 

 

 

Inédito

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca