reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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Confissão in vítreo

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Digo-te que me saldam

Em quiosques de estações de comboio e metro

Em lugares de refugo

Onde seres rotineiros ou erráticos

Jogam o destino na lotaria

Aos fins de semana e de mês

E sorris hesitante

Não se vá, crês,

O meu coração partir em dois

Partir-se em três como um mealheiro

Um porquinho que se alimentasse

A elogios e menções

Ao invés

O meu palhaço coração

Rasga nele um sorriso largo

Pois sabe do quanto gosto

De locais donde se parte

E no largo desse meu sorriso

Passeio-me como num quadro de Hopper

Levando a solidão

Como sombrinha pela mão

Entro, então, num desses quiosques

Compro um livro por 1 euro e meio

E leio-me enquanto

A minha solidão busca um biscoito

Atiro-lhe apenas o que tenho

Um coração impróprio

Como se fosse um osso

Duro de roer

Ou uma mera fantasia para entreter

 

 

 

Inédito

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca