Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Confissão in vítreo

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Digo-te que me saldam

Em quiosques de estações de comboio e metro

Em lugares de refugo

Onde seres rotineiros ou erráticos

Jogam o destino na lotaria

Aos fins de semana e de mês

E sorris hesitante

Não se vá, crês,

O meu coração partir em dois

Partir-se em três como um mealheiro

Um porquinho que se alimentasse

A elogios e menções

Ao invés

O meu palhaço coração

Rasga nele um sorriso largo

Pois sabe do quanto gosto

De locais donde se parte

E no largo desse meu sorriso

Passeio-me como num quadro de Hopper

Levando a solidão

Como sombrinha pela mão

Entro, então, num desses quiosques

Compro um livro por 1 euro e meio

E leio-me enquanto

A minha solidão busca um biscoito

Atiro-lhe apenas o que tenho

Um coração impróprio

Como se fosse um osso

Duro de roer

Ou uma mera fantasia para entreter

 

 

 

Inédito

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca