Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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O que a voz vê

não se escreve nesta língua

que se ajoelha linha após linha

como que fustigada pelo ruído

de torres tombando e chuvas torrenciais

 

A voz procura o cocuruto da cabeça

para se empoleirar e avistar

longínqua e vagamente

o que está contudo perto

 

Por vezes a voz é deixada no altar

ou na mesa do vestíbulo

até que alguém a liberte

de ter destino e destinatário

 

Noutros momentos

a voz entrançada pende

à maneira dos cabelos e das cebolas

e de tudo quanto faz chorar

 

O que a voz vê

não se alinha como a escrita

nem se conta como dinheiro

nem se calcula como tempo

porém arde como medula de astro

 

A voz descobre à sua custa

que o luar há muito se separou da lua

que a lua desenha órbitas únicas

na carta do céu

 

O que a voz inicia

por sua conta e risco

é a tempestade no mar alto

a bordo de barcos a brincar

 

O que a voz vê

é a jactância das ondas

a sua espuma canina

cheia de pontos finais

 

O que a voz não reconhece

na euforia ofegante

ou nas paisagens submersas

é o dom de destoar

a arte da dissonância

das marés desafinadas

e o prazer de naufragar

 

 

Regina Guimarães

de Traumatório (2020, Douda Correria)

gravação e edição áudio
Oriana Alves
masterização
PontoZurca