Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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O que a voz vê

não se escreve nesta língua

que se ajoelha linha após linha

como que fustigada pelo ruído

de torres tombando e chuvas torrenciais

 

A voz procura o cocuruto da cabeça

para se empoleirar e avistar

longínqua e vagamente

o que está contudo perto

 

Por vezes a voz é deixada no altar

ou na mesa do vestíbulo

até que alguém a liberte

de ter destino e destinatário

 

Noutros momentos

a voz entrançada pende

à maneira dos cabelos e das cebolas

e de tudo quanto faz chorar

 

O que a voz vê

não se alinha como a escrita

nem se conta como dinheiro

nem se calcula como tempo

porém arde como medula de astro

 

A voz descobre à sua custa

que o luar há muito se separou da lua

que a lua desenha órbitas únicas

na carta do céu

 

O que a voz inicia

por sua conta e risco

é a tempestade no mar alto

a bordo de barcos a brincar

 

O que a voz vê

é a jactância das ondas

a sua espuma canina

cheia de pontos finais

 

O que a voz não reconhece

na euforia ofegante

ou nas paisagens submersas

é o dom de destoar

a arte da dissonância

das marés desafinadas

e o prazer de naufragar

 

 

Regina Guimarães

de Traumatório (2020, Douda Correria)

data de publicação
19.03.2022
gravação e edição áudio
Oriana Alves
masterização
PontoZurca