Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Paro diante de um homenzinho que faz truques
numa cidade onde ninguém me reconhece
de um mundo velho
onde em vez de atletas
são os prestidigitadores que competem entre si

 

Um mundo onde ver-te novamente
não é incompatível com ver-te antigamente
onde leio nas cabeças e nas mãos
mas não nas páginas dos meus livros infantis

 

A minha pessoa passada rodeia esse mundo
à maneira de um subúrbio que cresceu selvagem
ervas e prédios do mesmo tamanho
charcos imundos e pontes inacabadas

 

A minha pessoa existe apenas
para dizer a quem ama
que ainda há tempo

 

A minha pessoa violentamente escrava
corre e salta em sonhos
para os braços de várias criaturas sem rosto

 

A minha pessoa ainda não perdeu a fé
no desejo de reinício de todas as coisas
estejam elas irmanadas ou apenas justapostas

 

A minha pessoa é tua
no momento em que lhe falas da sua reputação
e da tua proverbial invencibilidade

 

Paro diante de um homenzinho que faz truques
e pergunto-me até quando nunca
e pergunto-lhe até nunca quando
mitigando este meu riso tão feroz

 

 

Regina Guimarães

de Traumatório (2020, Douda Correria)

data de publicação
14.03.2022
gravação e edição áudio
Oriana Alves
masterização
PontoZurca