Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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Paro diante de um homenzinho que faz truques
numa cidade onde ninguém me reconhece
de um mundo velho
onde em vez de atletas
são os prestidigitadores que competem entre si

 

Um mundo onde ver-te novamente
não é incompatível com ver-te antigamente
onde leio nas cabeças e nas mãos
mas não nas páginas dos meus livros infantis

 

A minha pessoa passada rodeia esse mundo
à maneira de um subúrbio que cresceu selvagem
ervas e prédios do mesmo tamanho
charcos imundos e pontes inacabadas

 

A minha pessoa existe apenas
para dizer a quem ama
que ainda há tempo

 

A minha pessoa violentamente escrava
corre e salta em sonhos
para os braços de várias criaturas sem rosto

 

A minha pessoa ainda não perdeu a fé
no desejo de reinício de todas as coisas
estejam elas irmanadas ou apenas justapostas

 

A minha pessoa é tua
no momento em que lhe falas da sua reputação
e da tua proverbial invencibilidade

 

Paro diante de um homenzinho que faz truques
e pergunto-me até quando nunca
e pergunto-lhe até nunca quando
mitigando este meu riso tão feroz

 

 

Regina Guimarães

de Traumatório (2020, Douda Correria)

gravação e edição áudio
Oriana Alves
masterização
PontoZurca