Poemas de Bibe – 16.º

Actuação escrita

 

 

 

 

Pode-se escrever

 

Pode-se escrever sem ortografia

Pode-se escrever sem sintaxe

Pode-se escrever sem português

Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua

Pode-se escrever sem saber escrever

Pode-se pegar na caneta sem haver escrita

Pode-se pegar na escrita sem haver caneta

Pode-se pegar na caneta sem haver caneta

Pode-se escrever sem caneta

Pode-se sem caneta escrever caneta

Pode-se sem escrever escrever plume

Pode-se escrever sem escrever

Pode-se escrever sem sabermos nada

Pode-se escrever nada sem sabermos

Pode-se escrever sabermos sem nada

Pode-se escrever nada

Pode-se escrever com nada

Pode-se escrever sem nada

 

Pode-se não escrever

 

 

 

 

Pedro Oom

In Actuação escrita (Lisboa, &Etc., 1980)

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Estreito de Gibraltar

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Impossível discernir na tua cara

se te dói todo o caminho da garganta

ou mais abaixo

nas grutas e nos lagos da barriga

 

Na origem das ideias que tivemos

estava o desejo de adesão e desabono

O medo vigiava o nosso sono

e o cativeiro tornou-nos extravagantes

 

Impossível distinguir na tua cara

a luz que algum licor lá acendeu

dessa noite de anticorpos

que dá rugas aos amantes

 

Na origem das perguntas que fizemos

estava a volúpia do pânico

e o prazer da servidão

mas escapámos quase ilesos à elegância

 

E todas as palavras que agora proferirmos

no idioma das feras mal lambidas

soarão ao parecer da maioria

serão embaraçosas e sofridas

como as casas que se levam às costas

e se despejam aos pés dos agiotas

 

E todas as palavras que agora mastigamos

não nos cansamos de as mascar

até que segreguem a baba de aurora

com a qual queremos sarar o mundo

colar o céu à terra

e calar a calúnia

sem recorrer a fraseados

nem à libidinosa cortesia

 

Impossível separar na tua cara

o desdém da boca que o ostenta

e o sorriso do olhar que me sustenta

 

 

Regina Guimarães

de Traumatório (2020, Douda Correria)

 

 

gravação e edição áudio
Oriana Alves
masterização
PontoZurca