Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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Estreito de Gibraltar

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Impossível discernir na tua cara

se te dói todo o caminho da garganta

ou mais abaixo

nas grutas e nos lagos da barriga

 

Na origem das ideias que tivemos

estava o desejo de adesão e desabono

O medo vigiava o nosso sono

e o cativeiro tornou-nos extravagantes

 

Impossível distinguir na tua cara

a luz que algum licor lá acendeu

dessa noite de anticorpos

que dá rugas aos amantes

 

Na origem das perguntas que fizemos

estava a volúpia do pânico

e o prazer da servidão

mas escapámos quase ilesos à elegância

 

E todas as palavras que agora proferirmos

no idioma das feras mal lambidas

soarão ao parecer da maioria

serão embaraçosas e sofridas

como as casas que se levam às costas

e se despejam aos pés dos agiotas

 

E todas as palavras que agora mastigamos

não nos cansamos de as mascar

até que segreguem a baba de aurora

com a qual queremos sarar o mundo

colar o céu à terra

e calar a calúnia

sem recorrer a fraseados

nem à libidinosa cortesia

 

Impossível separar na tua cara

o desdém da boca que o ostenta

e o sorriso do olhar que me sustenta

 

 

Regina Guimarães

de Traumatório (2020, Douda Correria)

 

 

gravação e edição áudio
Oriana Alves
masterização
PontoZurca