Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta

Cântico do telhado

Partilhar

Escrevo no tampo da mesa

depois de ter esbanjado todas as folhas

com palavras a azul ultramarino

donde os navios não regressam

 

Dadas ou roubadas

outrora as palavras buscavam

a água parada entre rochas e corais

ou mesmo a do cais

devassada, negra e imunda

 

Escrevo no tampo da mesa

com a ponta da faca

depois de ter esgotado

a fibra maternal

a corda sensível

a veia artística.

Fico sem acordo

como se tivesse cortado os pulsos

para verificar a cor do sangue

 

Saberia voltar ao passado

mas não chegar a horas ao presente.

Saberia chorar sobre o leite derramado

mas não alimentar os olhos recém-nascidos

Saberia até deixar-me matar

mas não abandonando o corpo à lâmina

 

Dadas ou roubadas

as palavras mudam de cavalgadura

e dormem imóveis por cima dum paiol

e dormem douradas sobre a palha da granja

 

Dadas ou roubadas

ladram e ferram

quando outras

em caravana

as ultrapassam

 

 

Regina Guimarães

de Traumatório (2020, Douda Correria)

gravação e edição áudio
Oriana Alves
masterização
PontoZurca