Uma palavra

Para a rádio já muitos escreveram manifestos de amor. Foi assim com Eugenio Finardi, na grande vaga das rádios livres italianas, quando criou “La Radio”, rastilho para Luca Argel compor e interpretar esta nova ode à telefonia.

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Cântico do telhado

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Escrevo no tampo da mesa

depois de ter esbanjado todas as folhas

com palavras a azul ultramarino

donde os navios não regressam

 

Dadas ou roubadas

outrora as palavras buscavam

a água parada entre rochas e corais

ou mesmo a do cais

devassada, negra e imunda

 

Escrevo no tampo da mesa

com a ponta da faca

depois de ter esgotado

a fibra maternal

a corda sensível

a veia artística.

Fico sem acordo

como se tivesse cortado os pulsos

para verificar a cor do sangue

 

Saberia voltar ao passado

mas não chegar a horas ao presente.

Saberia chorar sobre o leite derramado

mas não alimentar os olhos recém-nascidos

Saberia até deixar-me matar

mas não abandonando o corpo à lâmina

 

Dadas ou roubadas

as palavras mudam de cavalgadura

e dormem imóveis por cima dum paiol

e dormem douradas sobre a palha da granja

 

Dadas ou roubadas

ladram e ferram

quando outras

em caravana

as ultrapassam

 

 

Regina Guimarães

de Traumatório (2020, Douda Correria)

data de publicação
16.03.2022
gravação e edição áudio
Oriana Alves
masterização
PontoZurca