Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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Lua gelada noite escaldante

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Imagine-se uma janela

uma janela que nos perseguisse

não com o muito que se esconde

mas com o pouco que se confessa

Imagine-se o caixilho e a vidraça

a tinta escamando.

Imagine-se a esquadria

dentro dela uma cara

cardápio

ementa

preçário

 

Escapei ao espelho

mas não à janela.

Sinto subirem até ao parapeito

o cheiro a urina dos cães

o cheiro a sexo da chuva miúda

o cheiro a morte das flores cortadas

 

Debruçada a essa janela

reinando sobre odores

fico prisioneira de uma vénia

e de uma carícia demasiado expressiva

 

Medito sobre um tempo

em que sem pensar

sem pensar dormia a sono solto

respirava sem pensar

até pensava sem pensar

esquecendo pernas pesadelos e pulmões

desígnios e devaneios

 

Debruçada à janela descubro

que me perdi da casa grande

e busco apreensiva os meus penates

temendo tê-los ofendido

tomando-lhes o lugar e a vez

 

Escapei às portas

as da frente e as das traseiras

mas as janelas

falsas ou verdadeiras

conseguiram acossar-me

 

Desde então não há instante

em que não observe que sou observada

e isso me absorva

como a noite suga o mel e a cor de todas as coisas

possuídas ou alheadas

 

 

Regina Guimarães

de Traumatório (2020, Douda Correria)

 

gravação e edição áudio
Oriana Alves
masterização
PontoZurca